Quando eu era criança e morava aqui no Rio, eu tinha que passar férias em Brasília. Pra mim era a coisa mais estranha do mundo. Eu cumpria todas as obrigações de criança numa cidade de turismo e ia “descansar” numa cidade admnistrativa. Eu lembro de descer do avião e pensar o equivalente da época para WTF. Como é que eu voltava bronzeada das férias? Eu morava numa cidade de praia e nunca ia pra praia. Mas claro que tem explicação. Eu não tinha amigos. Os poucos que eu tinha não iam pra praia. Uma vez a mãe de uma amiga minha me levou com a turma pra praia do Leme; parecia um sonho. Então eu fui muito pro fundo e não conseguia voltar. Eu comecei a agitar os braços pedindo socorro e a mãe da minha amiga acenava de volta, tchaaaau! – achou que eu estivesse brincando. Eu consegui voltar (claro né), e fui perguntar porque ninguém tinha ido me ajudar. A mãe da minha amiga ficou traumatizada, achou que levar criança pra praia era muita dor de cabeça pra ela, e foi o fim da minha vida de garota da praia.
Em Brasília a gente vivia entre o clube e o shopping – que durante muito tempo era o único. A minha vida nessa época era ler revistas em quadrinho e colecionar CD’s (tô matando todo mundo de inveja). E se não bastasse eu ter essa malemolência social toda, eu me sentia mais ET ainda entre a minha família. Quer dizer, pra ficar mais claro, entre a família do meu pai.
Não fui criada muito com eles. Depois que meus pais se separaram, eles sempre agiam como se minha mãe tivesse esnobado a família toda. De vez ou outra vinha alguém dizer que minha mãe era alcólotra, que era uma solteirona, coisa e tal. Eu sempre achei muito difícil entender e lá pelos meus anos mais rebeldes (uiuiui) me convenci que eles agiam assim porque tinham essa mentalidade de pod people. Assim, como se fossem corpos diferentes para uma mesma mente. Assim, o que um sofria era ofensa pessoal pra cada um dos outros. Até hoje eles não se envolvem muito na minha vida, e eu fico até aliviada. Toda festa de família ia todo mundo, mais os amigos e os amigos dos amigos, e sempre é uma muvuca de mais de 80 pessoas pra comemorar qualquer coisa. Fazem um festival de frutos do mar pro dia da páscoa. E todo mundo passa o dia bebendo. De noite tem sempre alguém dando escândalo, ou me puxando pro lado e desabafando algo. E nunca ninguém lembrava do meu aniversário ou qualquer coisa pessoal. Ah, e nesses desabafos, nego não regula os detalhes não, sabe? É um TMI FTW (gente do céu eu sou muito nerd).
Pois que os moradores da vila aqui do lado são bem desse jeito. É um tal de levar discussão do foro íntimo pra rua que eu vou te contar. Agorinha uma mulher gritava com um homem (não entendi as palavras) daquele tom recriminador “ô imbecil você entende as crianças”, e o cara respondendo “ué existe isso de entender mas criança não faz sentido” e uma vozinha de criança fazendo mimimi denguinho. Tudo podia ser tranquilamente discutido em casa, mas eles vão fazendo na rua mesmo, gritando, e páram bem debaixo da minha janela. Ah sim, pq o povo da vila é multi-tasking:
Mulher da Vila genérica: ô fulano você é burro não sabe fazer nada
Homem da Vila genérico: caraca você que é uma estúpida, sua estúpida
Velhinha da Vila genérica: Oi MVG, você viu se o homem da net passou aqui hoje?
MVG: Peraí que eu falo com você seu ignóbil — ah, dona VVG, não vi não, ele falou que vinha hoje?
HVG: Dona VVG, me diz o que é que eu conserto pra sinhora
VVG: Oi? O homem da net!
E enquanto eu ouço esses diálogos de louco eu fico pensando, isso é familiar… de onde? Ah… e lembro da minha família. E penso, ai como é bom estar sozinha! E logo em seguida me corrijo: sozinha como?
Eu sei que as pessoas acham que multitasking é uma qualidade positiva, mas eu estou me convencendo que meu onetrack mind é a melhor solução pra mim (ahahhaha ninguém vai entender a piada, lindo).
Só pra terminar, um cara teve uma conversa com um amigão que está morando em Curitiba e gostando muito. Como eu sei? Eram 10 da manhã e o cara resolveu ter uma longa (e gritada) conversa no celular, embaixo da minha janela.