Believe

Lembro uma vez, quando eu era criança, perguntei à minha mãe o que era Dejà-vu, porque achava que tinha tido um. Não sei porquê, mas a resposta foi uma dessas coisas que ficam ressoando na sua cabeça muitos anos depois.

“Você fez acontecer.”

Fiquei pensando desde então que talvez nosso cérebro goste tanto de certezas que adora pregar esse tipo de peça. Isso de nos levar a situações repetitivas pode ser uma maneira de informar o mundo. Só haveria essa necessidade se o mundo fosse informe.

Outro jeito de informar o mundo é criando coisas. Acho que todo mundo tem desejo de informar o mundo.

Na verdade tudo isso que eu tou falando é muito banal, todo mundo passa por isso. Mas nos últimos meses tenho me sentido como se tivesse acabado de sair de um sono profundo. Como se estivesse vivendo numa caverna todos esses anos.

Por anos eu era só vontade, potencialidade. “Acreditar” era uma coisa meio passiva. “Acreditar” era um salto no escuro, algo que deveria ser feito por fé.

Eu não me lembro de me sentir como agora. Não me lembro de não conseguir mais desvincular o acreditar do agir. Só sei que toda hora que me vejo me repetindo nos vícios, tendo um deja-vu um atrás do outro, me sinto ficando mais dura. Dura, condensada, sólida. Como se a cada repetição eu me reafirmasse e me identificasse. Por um lado é bom, pelo outro, não.

Mas agora, a palavra que não se confirma em ação só me deixa anestesiada. O que eu mais queria agora era uma agradável surpresa.

Publicado em:  on Novembro 15, 2009 at 9:34 pm Comentários (3)
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Pistas do mistério

Fui esvaziar a bolsa que usei pra sair “pra balada” com a Eri e achei isso:

Remains of the night

Aí lembrei de algumas coisas do dia  (noite):

- Hiro Nakamura e Sílvio Santos estavam presentes;

- Eu fui catar o dinheiro que o SS jogou pro alto e a Eri disse “Isso não é dinheiro de verdade”

- Um cara me puxou pro canto e perguntou de duas amigas que já tinham ido embora, e foi embora. Minutos depois ele tava assediando insistentemente uma mulher de mais de 37, que parecia horrorizada com o tratamento conferido. Me senti muito esnobada;

- O DJ mandou a gente embora ao som de “Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou…”

Este post e aquela noite foram patrocinados pelo fundo Eri chan de salvação social de Barus.

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Publicado em:  on Novembro 7, 2009 at 9:30 am Comentários (2)
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O Círculo e a Linha?

O Daniel pediu pra eu explicar um conceito da história da arte, estou aqui pensando se faço isso. Talvez fosse melhor fazer um fluxograma ao invés de texto.

Mas pensando em como eu ando lendo livros empoeirados escritos por pessoas já mortas, e vendo o post sobre crianças-prodígio (incluindo o pequeno crítico culinário), fiquei me sentindo meio criança precoce.

Na hora que o menino fala “prosciutto” ao descrever uma pizza, eu lembrei de uma coisa que me aconteceu no domingo passado, em que eu resolvi fazer uma pequena extravagância. Fui no Talho Capixaba e pedi um sanduíche de pastrami, queijo de cabra, rúcula e tomate fresco no pão ciabatta. (Eu que inventei, lá no Talho você pode inventar o sanduíche que quiser com os ingredientes que eles têm). O garçon tascou azeite no sanduiche, ficou um pouco oleoso, mas tava ótimo. Aí eu sento no balcão (pra economizar com os 10% que teria que pagar se fosse pra uma mesa),  e dois velhinhos, que também pediram sanduíches, ficam de olho no meu. Olha, um deles pediu um sanduíche de salmão defumado e pastrami. Chegou um terceiro e falou, “coloca uma rúcula pra ficar mais sensual!” Mas eles se admiraram foi no meu sanduíche. “Você vai ficar comendo isso até terça!” (o sanduíche era grande mesmo). Ficaram todos alegres que eu não ignorei eles. Uma hora eles se distraíram e eu pedi pra embrulhar o sanduiche pra levar pra casa. Aì quando se voltaram pra mim, um deles disse “Já comeu tudo?!”

Me senti em casa com aqueles velhinhos. Não senti como se fossem meus avós ou qualquer coisa, me senti como se estivesse nos albergues de novo. Num lugar onde as pessoas estão compartilhando a mesma disposição à experiência realizada – comer bem, no caso do capixaba; viajar, no caso dos albergues.

E bem, assim minha mente se voltou ao negócio dos latinos-e-mediterrâneos x germânicos-e-nórdicos, o círculo e a linha, o clássico e o romântico, o pitoresco e o sublime, e a dialética ou dinâmica do pensamento ocidental.

Mas agora deu preguiça de explicar. Tá muito quente.

Publicado em:  on at 9:22 am Comentários (5)
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Você sabe que está estudando demais quando…

…você acha que o autor está falando com você, diretamente. Não importa se o livro tenha sido escrito em 1988, por um comunista italiano. Ele parece estar respondendo às coisas que andam minhocando na minha mente:

“Não, a vida é naturalmente irracional: racional é o pensamento que se entrelaça à vida, resolve os problemas continuamente colocados por ela, transforma-a em consciência da vida”

(Argan, G.C. Arte Moderna. p. 272)

Ele tá falando sobre como Gropius interpreta a racionalidade e como se propõe a pensar a arquitetura racional (e tudo mais que ele realiza como sendo racional).

” A salvação não reside na razão que faz projetos, mas na capacidade de viver com lucidez a casualidade dos acontecimentos. Tudo se resume a encotrar o ritmo próprio e não perdê-lo, aconteça o que acontecer.” (p. 532)

Aqui ele tá falando do Pollock e seus quadros “respingados”, e também do Jazz.

Dr Argan, tá anotado. É sempre bom conectar-se com alguém, mesmo que este alguém já esteja morto.

Isso dito, chega de estudar. Amanhã vou dar uma pausa. Quando fica pessoal demais, eu fico querendo voltar pra NY…

Rolling with the punches.

O repeteco

Vi “Dança com Lobos hoje”, e não passou na regra dos 15 anos. Terei eu ficado cínica demais?

Pareceu muito velho. MUITO. Que mundo era aquele que criou “Dança com Lobos”?

Não parece o mesmo mundo que criou “Inglorious Basterds”. Esse que vi e revi depois de ter 15 anos. Tinha menos de 15 anos quando vi Pulp Fiction, sem gostar. Será que hoje eu gostaria? Acho que revi depois dos 15, e não gostei.

Aos 13 eu chorei vendo “Cinema Paradiso”. Chorei que funguei e saiu meleca e foi aquele drama. Por anos continuava chorando ao ver “Cinema Paradiso”. Chorava só de ouvir os violininhos. Agora acho o Toto um belo de um f¨lha da p*ta. (Não é auto-censura, é pra evitar o search engine).

Eu lembro quando era criança e ia ao cinema com minha mãe, ela sempre parecia ter um acesso privilegiado à narrativa. Ela sabia explicar tudo do filme! Sabia coisas que ainda iam acontecer. Eu nunca tinha percebido que acabei passando anos com a sensação que existiam pessoas com um acesso privilegiado às coisas da vida.

Hoje em dia parece mais que tá todo mundo criando seu mundinho particular, e ninguém vive no meu mundo. Os meus problemas são só meus mesmo.

Em Dança com Lobos, tinha sempre um índio muito sabido.

No meu mundo não tem mais índio sabido nenhum.

O meu mundo tá mais pra cada um por si, acreditando na narrativa particular de cada um, as vezes se unindo a outros com objetivos diferentes mas um gosto especial pela sensação de estar vivo.

No meu mundo sou só mais um Inglorious Basterd.

Arrivederci.

Eu sofro com telemarketing e quem paga é você, amigo

Baru: boa tarde senhor andré, estaria interessada em fazer uma doação de chocolates?
André : doação de chocolates? Como é isso?
Baru: perfeito, a doação de chocolates consiste na aquisição de chocolates por parte de terceiros, sem ônus financeiros aos mesmos
Baru: a proposta aqui é que a aquisição de chocolates referida seja financiada pelo senhor, confere?
André : uhaeuhuaehuae, mas para que fim?
Baru: para fins de contribuir com o nivelamento da química do cérebro feminino de terceiros

Passei o dia falando com atendentes de telemarketing mil. Clusterf*ck do caramba.

E no final só fico pensando, a nossa vida tá cada vez mais pulverizada e descontruída, ninguém tem mais noção do todo, é briga de faca em cabine telefônica…

Publicado em:  on Outubro 29, 2009 at 3:28 pm Comentários (5)
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Into the wild

O ano não terminou, eu sei. Mas eu dei uma parada pra reavaliar o que fiz.

Cheguei à conclusão de que tinha uma visão muito imatura da vida. Não que eu já tenha ficado perfeitamente madura, mas…

É chegar até aqui e perceber que eu estava perseguindo a cenoura, e não me dei conta da corrida. E nessa, eu estou me dando conta que, desde 2006, eu tenho perseguido x, encontrado z, e refazendo meu trajeto a cada nova etapa.

Fico feliz que eu não tenha que chegar ao ponto em que chegou o Supertramp no final de Into the Wild.

Tenho que me libertar das más escolhas que fiz: das amizades tóxicas que cultivei, nas quais insisti; dos relacionamentos imaturos em que me investi. Nas esperanças que depositei em coisas que não tem nada a ver com o que me falta preencher na vida.

Cegueira de olhos abertos, quem curte?

 

Publicado em:  on Outubro 28, 2009 at 1:47 pm Comentários (1)
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Inocência Barulesca 2

Muito engraçado ver esse post no blog da Erica. Lembro de estar acompanhando esse seriado na época da viagem pra Obamaland e, quando cheguei na Times Square, ver outdoors digitais com propragandas dele.

Saudade do seriado, queria poder acompanhá-lo, mas a Vivo não deixa!

Ainda bem que não chamei os bombeiros hein!

Publicado em:  on Outubro 20, 2009 at 1:54 pm Deixe um comentário
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Inocência Barulesca

Eu, menina do campo Barulesca aqui, tinha sido acordada por um uivo canino e perdido o sono. Fiquei vendo Jtv e rindo de seriados ingleses bobos, e vez por outra rolava um som estranho. Lá pelas 3 da manhã eu começo a ouvir um barulho metálico estranho, e então um gemido fantasmagórico.

Na hora eu lembrei de um caso que ocorreu há uns 5 anos, talvez mais. Eu estava fazendo fisioterapia por conta de uma tendinite (na verdade, tenossinovite, coisa que todo designer tem), e me largaram numa cabine com um aparelho que emite choques elétricos ainda ligado ao meu braço. Estava lá eu, numa cabine de 1×1,5 m, dentro de uma sala maior com infinitas outras cabines. O profissionalíssimo funcionário da clínica, dito fisioterapeuta, havia me instruído a gritar quando o aparelho parasse de funcionar. Eu já me sentia ridícula o suficiente com aqueles choquinhos no braço. Eles passam uma geleca em você, grudam os eletrodos, dizem, “quando parar, grita”, e te fecham naquela cabinezinha. Era só eu lá, olhando pro pano que me separava do mundo lá fora. Silêncio sepulcral. Eu, campesina, esboço minha capacidade de seguir instruções tão profissionais:

Baru Campesina: ….oi?

Eis que uma voz descarnada se faz ressoar. Na hora eu lembrei daquele conto do Edgar Allan Poe, “O gato negro”.

Voz descarnada: OOOOOOOOOOOOi…

Claro que eu fiquei em silêncio. CLARO. Vou acelerar a história pra parar com esse flashback do flashback. No final, a voz descarnada era a de uma velhinha que estava em fisioterapia por conta de problemas neurológicos. Sabe-se lá porquê ela resolveu me responder, talvez fosse uma vitória pessoal para ela, mas me deu um cagaço do caramba, velha safada.

E então, eu aqui, me divertindo, me senti culpada ao ouvir uma voz fantasmagórica. Tem uma casa de repouso na vila, bem em frente à minha janela, e aquele gemido poderia ser uma velhinha morrendo. Começou a me dar agonia. Parei pra pensar que não tenho que me preocupar nada, é uma casa de repouso, tem um monte de gente qualificada pra atender a velhinha. Alias, ou a velhinha tava morrendo, ou era petit mort.

Fiquei me sentinto culpada de novo por fazer piada da velhinha, mesmo que tenha sido só no twitter. (A frase ficou engraçada, merecia um tweet)

Aì abaixei o som e fiquei escutando. Não, não podia ser petit mort. Era alguém morrendo. Faltando ar. E então…

“Ai mãe, ai mãe ai…AI AMOR”

Hahaha que lindo, flagrante delicto auditivo. Essa vila é uma coisa, vou te contar. Não acredito que parei tudo que eu tava fazendo pra dar uma de peeping tom.

Publicado em:  on Outubro 19, 2009 at 8:39 pm Comentários (5)
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Epic win sem testemunhas

Estou eu aqui curtindo meu sofá, vendo um documentário sobre a árvore genealógica da humanidade. Em certo momento, travo o seguinte diálogo (sei, perfeitamente platônico e one-sided) com o narrador:

Narrador: No Oregon foi achado um artefato nada convencional

Eu: Merda!

Narrador: O que achamos foi realmente surpreendente

Eu: Acharam cocô

Narrador: Esperavamos encontrar pontas de lança, ferramentas

Eu: Acharam dudu

Narrador: E o que achamos nos surpreendeu. Um cropólito (mostra um pequeno tolete)

Eu: Caraaaaaaaca!

Narrador: É isso mesmo. Alguma mulher ou homem ancestral nos deixou esta amostra de fezes fossilizada

Eu: Pô gente eu tava de sacanagem, fala sério

Publicado em:  on Outubro 18, 2009 at 9:41 pm Comentários (7)
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