Desabafo

Parte da minha dissertação de mestrado:

Em Raízes do Brasil (1995), Sérgio Buarque de Holanda defende que a civilização desenvolvida no território brasileiro possui raízes rurais, mesmo que não se configure, propriamente, uma civilização agrícola. Desde a época colonial, o engenho representava uma célula autossuficiente de ocupação do espaço e organização social. Mesmo os objetos utilitários, como móveis e vestuário, eram manufaturados dentro de seus limites. O grupo familiar isolava-se e criava valores particulares, terminando por suplantar aqueles públicos. A vida doméstica, rural, em contraste com a vida pública, urbana, prezava o indivíduo sobre a comunidade e, por conseguinte, criava uma sociedade de privilégios, e não de direitos. Para Holanda (1995), a elite constituída procura aliar-se às artes liberais, ao trabalho mental, desvinculando-se das mecânicas, ditas menores, às quais associam às classes servis. A oposição criada acaba por dar à inteligência o papel de ‘ornamento e prenda’, ‘erudição ostentosa, expressão rara’ e não ‘instrumento de conhecimento e ação’ (idem, p. 83). “

Parte da minha dissertação era justamente mostrar o valor de uma obra de arte que não é baseado na mostra de um trabalho de “expressão rara” e “técnica ostentosa”, mas sim em como ela se mostra um “instrumento de conhecimento e ação”.  Afinal, “abstrata” toda obra de arte é, se considerarmos que “abstrato” é aquilo que é produzido pela inteligência humana, como resultado da nossa interação com os estímulos do mundo vivenciado.  Dizer que um Da Vinci é melhor que um Malievich é como dizer que quem “fala bonito” é mais inteligente. Da Vinci não é importante para a arte porque é um patrimônio, nem porque ele “desenha direitinho”. É porque trabalhou para tornar a pintura uma arte liberal, como a gramática, a dialética, retórica, a geometria, aritmética, astronomia e a música.

Hoje estava casualmente lendo umas notícias e me deparei com uma informação que me deixou muito frustrada com minha passagem pela pós-graduação. Diversas vezes fui esnobada ao mostrar minha dissertação. A acusação? Ela estaria aquém do que se espera de um trabalho de mestrado, pois, entre outras questões (todas com respeito à formatação, e nenhuma em respeito à conteúdo), ela é muito CURTA ( são 78 páginas excluindo os anexos, referências bibliográficas e todas aquelas páginas obrigatórias que antecedem o texto; no total, 107p.).  Com pouco mais de um centímetro de espessura, minha humilde dissertação parece uma anã ou um feto abortado frente os imensos volumes (de pelo menos 200 páginas no total) que meus colegas apresentam. Independente disso, na banca de defesa, por mais de 50 minutos os membros da banca elogiaram, entre outras coisas, como eu era direta e não me perdia em citações e revisões bibliográficas (ou seja, encheção de linguiça). Minha frustração de hoje foi provocada por descobrir que a exigência de praxe nos programas de pós nos EUA e na Inglaterra é de 15000 PALAVRAS ao final do programa, e uma média de 5000 palavras esperadas para cada capítulo. Quantas palavras possui a minha? 27.426 palavras (dentro daquelas 78 páginas que consistem minha dissertação em si), e todos os capítulos com no mínimo 5.233 palavras, excluindo introdução e conclusão.

Quer dizer, numa dessas universidades, meu trabalho teria sido considerado “ostentoso”. Aqui, é “magricelo”.

Porque é importante restringir PALAVRAS e não PÁGINAS? Ao restringir as palavras, a pessoa é obrigada a chegar a um ponto objetivo. Tentei mostrar isso aos meus alunos ano passado. O desafio  era escrever um texto mostrando o que você entendeu da leitura, e dizer isso de forma sucinta,  o que força você a realmente LER o texto, e não dar uma passada de olho e dizer que leu. Eu forçava todo tipo de regra idiota para que, sem perceber, eles se forçassem a ler de verdade. Sabe o que eles achavam? Que eu era uma babaca. Realmente, pensar dói.

No final do semestre fiquei felicíssima de ver trabalhos maravilhosos, mas um ou outro aluno ainda ficou sem saber o que aconteceu naqueles 3 meses. Não se livraram de preconceitos e se trancaram ainda mais no mundinho idiota e rural que é tão característico da  imobilidade social brasileira. Não preciso dizer que todo mundo passou, a final, era só uma matéria de 2 créditos para encher linguiça dentro de uma graduação que é cursada sem qualquer foco nem acompanhamento acadêmico adequado.

Mas o que é que eu posso cobrar deles, quando toda a comunidade acadêmica ainda se foca em forma em detrimento de conteúdo?

Publicado em:  on Maio 21, 2009 at 4:15 pm Comentários (4)
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4 Comentários Leave a comment.

  1. Se eu pudesse gravar o som das minhas palmas pra você agora, eu faria.
    Entendo totalmente a sua frustração; eu sou uma total frustrada no tocante à minha monografia horrorosa. E o quanto de encheção de lingüiça a gente vê por aí hoje…

  2. Encheção de linguiça discente é igual a demagogia academica?

    Se mestrados pesando toneladas valessem o que pesam, provérbios não seriam tão famosos.

    Vale quanto pesa.

    Ora bolas!
    Alias, gostei do trechinho que você publicou.
    Besos!

  3. Meus caros,

    Não há como discordar de vocês. É duro…ter que aturar orientador vaidoso, filho querendo atenção em casa, pressão familiar para resolver logo e tratar de trabalhar de vez, enfim.

    Aí, depois de todos esses percalços vem isso. O academicismo é intragável mesmo e parece que mais importa a forma, a praxe, a pompa e circunstância do que o conteúdo.

    Quem avaliou a sua tese deveria ter sido feirante na outra encarnação porque provavelmente avaliou tamanho e não conteúdo. Botou na balança e deu preço.

    • Muito bizarro receber esse comentário. É feito por um homonimo meu, e direciona para um site bizarro. E ainda sim não parece bot, porque tem a ver com o post. Aprovei, mas editado, viu…


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