Em albergues você conhece todo tipo de gente (e ácaros, mas isso não rende post, só alergia). Nos meus últimos dias em Salvador, o quarto que eu dividia com mais três meninas ficou vazio (além da minha presença). Então, sexta-feira à tarde, percebi que havia uma mala em baixo de uma das beliches. Eu tinha uma nova companheira de quarto.
Era uma alemã loira, muito simpática. Combinamos de fazer um tour no sábado. Como já tinha combinado com o Rubens, fomos os três. No final do dia, dada a fuga do nosso colega, passamos a noite pensando no que fazer. Ela disse que havia conhecido um sueco e um suíço na praia, e que o suíço disse que tinha uma festa de um amigo que morava em Salvador. Eu tava numa vibe “deixa a vida me levar”, topei ir com ela. Chega o menino sueco pra nos buscar no albergue lá pelas 21h. Andamos um pouco e vamos a um restaurante de comida italiana cujos donos parecem soteropolitanos. Mas não! É um casal de americanos. O marido, do Brooklyn, tem até sotaque local. A esposa, de Los Angeles, não fala tão bem português e educa os filhos em casa (o famoso homeschooling).
Tipo, pessoas que a gente conhece aí, tranquilamente, pelas esquinas da vida.
Também estavam no restaurante um capoerista de Brasília e o tal do suíço. Conversa vai, conversa vem, fomos à tal da festa.
Na cabeça da alemã, a festa era:
1) Na casa de um amigo local do suíço
2) Uma festa brasileira
3) Uma festa de adultos
E tal era minha concepção, pois a mesma era pautada pela moça da Bavária.
ALAS! (nota do editor: isso é uma interjeição comum na lingua inglesa. Mais aqui)
Ao chegarmos no local, vimos que era um restaurante. Na verdade, uma lanchonete. Dessas de comida pra surfista: sanduíche natural, suquinho, açaí. Não era só isso que era diferente da nossa imagem mental da festa.
Alemã: Mas só tem gente LOIRA
Olha, até aí, tudo bem. Surfista bota parafina no cabelo. Mas na terra do axé e da capoeira, tava um pouco estranho. Eu olhei pra turma com quem eu estava chegando. Fora eu e o candango capoeirista, era todo mundo loiro também. Eis que eu realizei…
Baru: (mentalmente) É TODO MUNDO LOIRO
Ok, vocês ainda não estão chocados como eu estou, ou pelo menos não tão vendo como isso é bizarro. Eu estava na BAHIA, SALVADOR, terra do axé e centro da cultura Afro. Você anda na rua e vê aqueles negõe sagazes, aquelas meninas lindas. Eu ficava morrendo de inveja porque minha cor é de couro curtido e a deles, brilhante e linda, parece tecido mesmo, não sei explicar. Sem falar dos olhares, da auto confiança. O único negão que me deu bola tava sob efeito de biju. E eis que, na minha última noite, eu vou parar numa festa escandinava.
Sim, porque essa festa era:
1) Num restaurante pseudo natureba
2) De uns 20 estudantes Noruegueses
3) Uma festa de adolescentes bêbados
E fica pior: eram só 22h e nego já tava pra lá de Bagdad, assustando os funcionários e tudo. Os 4 brasileiros da festa (tirando eu) estavam feito cachorro na frente do forno de frango de padaria, e os loiros da minha turma rindo. Sim, eu estava enturmada com os outsiders, ia fazer o que. Numa festa de loiras, eu era a última pessoa a ser percebida pelos meus compatriotas. Restou-me virar Viking honorária. Ficamos naquele pedaço da Bahia empossado pelos escandinavos um bom tempo, até nos decidirmos por outro lugar. Mas eu aprendi, pelos meus coleguinhas “o sueco” e “o suíço”, que realmente, tal como era comentado por colegas meus na faculdade que eram viciados em heavy metal, o povo do norte mata ursos com os dentes e quebra pedras com a cabeça.
Me disseram os três – a alemã incluída – que eu me adaptaria bem ao norte. Eu disse que era frio demais pra mim. “Mas faz calor por uns dois meses no verão”, disse o suíço. “E eu vou passar o resto do ano deprimida?”
A resposta:
” : ( ( ( ( ( “
Aliás aposto que se eu fosse, ia acabar num terreiro de umbanda em plena Estolcomo.