Eu não sei se posso dizer que sou fã do Tarantino. Não gosto de todos os filmes dele. Acho que o que sinto é uma certa simpatia. Mas a cada novo lançamento, estou começando a virar tiete.
Primeiro com Kill Bill. Não gostei muito do primeiro. Achei as referências ao Japão muito chatas, devo ter passado da fase. Também deve ser porque depois que o que eu gosto vira moda, eu passo a achar que não tem mais graça (viu Juju). Mas adoro o segundo. Adoro as referências aos filmes de Kung Fu que a gente via na casa da Mana, graças à uma rede de inteligência que sempre dava um jeito de descobrir locadoras e que contrabandeava fitas cassetes. Na época do cd rom e do computador, a coisa começou a perder a graça. E aí o Jackie Chan foi pra Hollywood e começou a fazer papel de Didi Mocó. I digress! O caso é que, no Kill Bill 2, pude ter a sensação de ver aqueles filmes de novo. E tem uma mistura com um tipo de Western. Melhor ainda, Spaguetti Western!
Recentemente, depois que vi There Will be Blood e 3:10 to Yuma, comecei a ter uma certa quedinha por westerns. O motivo principal é pelas cenas em widescreen, e as cores ocre, que sempre me dão a sensação de exagerar o conflito ser humano x mundo. O mundo é hostil, as poucas pessoas na tela são hostis, e no final, você tem a possibilidade de ver os personagens guiando a narrativa, meu jeito preferido de contar/ouvir histórias. Filmes assim só dão certo com um time muito bom, tudo tem que ser muito bem orquestrado: os atores, a fotografia, o som, a trilha sonora, a edição… Assim, eu sempre associo um filme/livro/seriado (ou o que quer que seja) character-based a uma narrativa que explora o meio como linguagem.
E um Spaguetti Western, não que eu seja uma especialista nem nada, é inevitavelmente baseado na estrutura de linguagem do western. Para um americano, o western acaba sendo algo que pode ser estudado pela sociologia. No começo, os índios eram os bandidos, e os cowboys, mocinhos. Ao passo que a postura da sociedade em relação à sua história muda, os westerns também mudam – principalmente os roteiros. Mas na Itália não haviam índios e cowboys. Existem tensões sociais parecidas, como também existem no Brasil (cangaço, anyone?). Um Spaguetti Western é criado quando se tem o Western como um gênero cinematográfico mais do que um registro da imagem de uma tensão social dentro de uma dada cultura. Assim, os clichés, as marcas, a estrutura e o formato contribuem para uma linguagem, um mundo particular de coerência interna. Uma experiência cinematográfica.
E assim eu vejo a lógica dos filmes do Tarantino. Deve ter muito a ver com o fato de ele ser, basicamente, auto-didata. Mas em Inglorious Besterds, ele mostra que amadureceu muito. Eu comecei a rir já nos primeiros minutos, e continuei a rir bem depois de haverem acabado os créditos. Alias, fui rindo ao banheiro, fui rindo pegar o onibus pra casa, fui rindo ao supermercado, e ri até chegar em casa. Eu queria ter saído do cinema e encontrado o Tarantino pra beber uma cerveja e ficar comentando o filme. Aposto que ele já fez muito isso, deve estar de saco cheio. Mas esse é um dos filmes que eu preciso ter em DVD.
Ok, agora eu vou escrever um monte de spoilers.
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