O repeteco

Vi “Dança com Lobos hoje”, e não passou na regra dos 15 anos. Terei eu ficado cínica demais?

Pareceu muito velho. MUITO. Que mundo era aquele que criou “Dança com Lobos”?

Não parece o mesmo mundo que criou “Inglorious Basterds”. Esse que vi e revi depois de ter 15 anos. Tinha menos de 15 anos quando vi Pulp Fiction, sem gostar. Será que hoje eu gostaria? Acho que revi depois dos 15, e não gostei.

Aos 13 eu chorei vendo “Cinema Paradiso”. Chorei que funguei e saiu meleca e foi aquele drama. Por anos continuava chorando ao ver “Cinema Paradiso”. Chorava só de ouvir os violininhos. Agora acho o Toto um belo de um f¨lha da p*ta. (Não é auto-censura, é pra evitar o search engine).

Eu lembro quando era criança e ia ao cinema com minha mãe, ela sempre parecia ter um acesso privilegiado à narrativa. Ela sabia explicar tudo do filme! Sabia coisas que ainda iam acontecer. Eu nunca tinha percebido que acabei passando anos com a sensação que existiam pessoas com um acesso privilegiado às coisas da vida.

Hoje em dia parece mais que tá todo mundo criando seu mundinho particular, e ninguém vive no meu mundo. Os meus problemas são só meus mesmo.

Em Dança com Lobos, tinha sempre um índio muito sabido.

No meu mundo não tem mais índio sabido nenhum.

O meu mundo tá mais pra cada um por si, acreditando na narrativa particular de cada um, as vezes se unindo a outros com objetivos diferentes mas um gosto especial pela sensação de estar vivo.

No meu mundo sou só mais um Inglorious Basterd.

Arrivederci.

Eu sofro com telemarketing e quem paga é você, amigo

Baru: boa tarde senhor andré, estaria interessada em fazer uma doação de chocolates?
André : doação de chocolates? Como é isso?
Baru: perfeito, a doação de chocolates consiste na aquisição de chocolates por parte de terceiros, sem ônus financeiros aos mesmos
Baru: a proposta aqui é que a aquisição de chocolates referida seja financiada pelo senhor, confere?
André : uhaeuhuaehuae, mas para que fim?
Baru: para fins de contribuir com o nivelamento da química do cérebro feminino de terceiros

Passei o dia falando com atendentes de telemarketing mil. Clusterf*ck do caramba.

E no final só fico pensando, a nossa vida tá cada vez mais pulverizada e descontruída, ninguém tem mais noção do todo, é briga de faca em cabine telefônica…

Publicado em:  on Outubro 29, 2009 at 3:28 pm Comentários (5)
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Etelvina, sua criada

Peço desculpas pelo post chato.

Achei essa frase da Clarisse Lispector e me identifiquei:

“O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão.”

(Agora a chateação do post dá suas caras; sempre me avisam que eu sou muito técnica quando escrevo, mas é porque as idéias tão gritando “a fila anda!” lá de trás, e, bem, aqui eu posso, dá licença)


Motivo #1

Eu acho que sei como o que “obviamente não presta”, “inacabado”, “malfeito” desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão” sente. Não porque eu ache que não preste, que sou inacabada, malfeita. É só essa tensão constante misturada com uma vontade forte. Todas as duas, forças direcionadas para coisas as quais se diz, “mas, pra quê?”, “é de comer?”, “faz dinheiro?” “puta que pariu, você merece sofrer, que idiota.” Uma energia enorme que se dissipa e se concentra e se dissipa e se concentra e se dissipa e se concentra e se…

Motivo #2
Você diz pro que obviamente não presta, inacabado, malfeito, que gosta, e ele te acha uma idiota. É adorável. Você elogia e ele logo acha, ah, que puxa, lá vem o elogio da cauda grande.

(parêntese: o elogio da cauda grande te dá uma chicotada que te pega de surpresa)

Ele pensa, uma hora ela vai se tocar que eu não presto, porque isso é óbvio. Ela é inteligente, só pode estar de sac*nagem comigo. Mas mal sabe o mal acabado que eu pensava a mesma coisa.

Motivo #3
É a Clarisse. Eu lembro que o primeiro livro dela que tive em casa era o do coelho. A capa era assustadora, nunca li. Fiquei ligando coelho medonho da ilustração da capa a Clarisse Lispector, com aquele olhar de lança. O olhar dela em todas as fotos que eu via era perfurante, ok, mas perfurar é pouco, aquilo era lança de matar cavalo. E uma vez eu fui pro Museu da Língua Portuguesa porque tinha uma exposição sobre ela. Num vídeo eu ouvi sua voz pela primeira vez. Achei muito estranho. Que sotaque é esse? É de onde? Ela é ucraniana (não sei, joguei a piada, sei que ela é eslava), mas chegou ao Brasil cedo. Que sotaque é esse? Pois não é sotaque. Ela tinha a língua presa. Estava lá aquela mulher de olhos de lança, postura impecável na poltrona de entrevistada, dominando a cena, …e a língua presa. Uma dificuldade de fala, uma lança nos olhos. Inacabada. Em algum lugar li que ela tinha sido recebida no mundo literário com um pouco de desprezo, porque “Lispector”, e pior,”Clarisse”, eram nomes ridículos. Obviamente não prestam.

E isso de terminar logo de cara, começar já acabado, remediado está. Eu sinto uma alegria tão grande de suspeitar que sabem como me sinto. É bom botar a planta do pé no chão depois de tanto tempo andando na ponta dos pés. Mas aí que nem começou e já acabou, eu quis fingir que não tinha acontecido, mas voltar a andar na ponta dos pés assim… Agora que já tateei o chão, a ponta dos dedos sabe que tem todo aquele espaço inconquistável, e é tão pior assim.

Obrigada, volte sempre!

Ontem minha tia veio aqui fazer uma visita e trouxe uma amiga. Eu achei tranquilo isso, até porque há 3 anos atrás, eu fui na casa dessa amiga e tudo. Reciprocidade, certo? Na verdade eu não convido qualquer um pra minha casa, mas se ligarem pedindo pra vir, eu não sei dizer “não vou estar”, ou qualquer desculpa do tipo. Recebo, ofereço água, café, o que tiver.

Pois a amiga veio e aprovou o meu apartamento, disse que estava estiloso. Ao ver a cozinha, disse, ah, é boa, cabe fogão, você não vai cozinhar muito mesmo…

- Não, eu cozinho. Cozinho todos os dias, adoro cozinhar.

Corta para a cara de espanto #1 da visita. Outras caras de espanto se seguiram, e eu devia ter prestado mais atenção.

Nota mental: Porquê as pessoas assumem que eu não gostaria de cozinhar?

Depois, sentada no meu sofá, ela continua: aprova que eu não tenha TV.

Nota mental: Porquê ela tá achando que eu não tenho TV? Eu tenho um computador, vejo bobagem nele todo dia. Não ter TV não é nenhum veganismo intelectual da minha parte.

Daí começamos a conversar sobre cultura e tudo mais, e quando falamos de cinema, ela vai citando que fez cursos na Casa do Saber e tal, dá o pedigree do professor, mas nenhuma idéia própria. É um perigo isso pra mim, porque eu me empolgo a falar e a pessoa fica sempre surpresa. Eu não posso dizer onde li isso porque eu que pensei, é condensação de experiência e não nota taquigráfica. Não acho nada de mais querer ser diletante, as pessoas que tem curiosidade e querem matá-la estão no seu direito. Mas fatalmente acabo dando uma de professora. Eu sei que ofende. Eu devia ter me controlado mais. Mas é muito difícil ouvir alguém falando algo e esperar que eu concorde. Na minha cabeça, uma conversa se dá com: uma pessoa fala, a outra também, as idéias se encontram no ar e vão virando outras coisas. Isso de falar esperando que alguém concorde é, pra mim, reservado para momentos cersibon entre eu e a Juju.

Mas a moça foi me deixando falar e dando corda e tal, e eu me descontrolei. Fiquei pensando lá no fundo, nossa, será que lá vem o comentário passivo agressivo? Claro que sim, é o eterno retorno! (piada intelectualesca, ignorem)

“Poxa Bárbara, na sua idade não deve ter ninguém assim que nem você, você nem deve ter muitos amigos! Deve todo mundo te achar uma esnobe quando você começa a falar essas coisas. Deve todo mundo te achar um ET! Que bom que você tá tentando o doutorado, é a sua cara mesmo!”

Vou programar um choque pra toda vez que eu começar a falar feito professora.

Publicado em:  on Agosto 3, 2009 at 11:48 am Comentários (7)
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Ble

tremenda inveja desse moleque

tremenda inveja desse moleque

Publicado em:  on Junho 26, 2009 at 10:21 pm Comentários (2)
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Nojinho de si

Eu tou um saco.

Mas em minha defesa, quero deixar claro:

Não ter casa me faz depender dos outros, de modo que meu único stand by (myself) é quando durmo ou no caminho entre ver apartamentos e encontrar com os outros. Não é de todo ruim, porque são pessoas que me amam, apesar de tudo. Mas sinto que sempre sobra pros meus pais. Aí fico aqui com raiva de mim mesma, por não resolver minha vida logo e aliviar pros meus pais (emocionalmente, principalmente), triste por ver como a vida é essencialmente uma máquina de fazer angústias, duvidando de mim mesma a cada cinco segundos.

Eu tou um saco.

Tô com uma ressaca moral imensa, mas sei que ainda tem muita merda pra eu fazer esse ano.

(REPOST)Usando o Histórico do Browser para estimar gênero

Postei sobre esse site há uns tempos atrás. Como ando numa época de status report da minha vida, resolvi fazer o teste de novo.

Nesse site tem um script que estima, em porcentagem, a probabilidade de você ser homem ou mulher, baseado no histórico do seu browser. Daquela vez, o meu deu 50% pra cada um. Agora deu…

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Publicado em:  on Maio 9, 2009 at 7:08 pm Comentários (1)

Como assustar sua família II

Hoje fui ver Star Trek com meu irmão e um amigo dele. No meio do filme eu tive certeza que o Kirk chamou o Checkov de “Jerkoff”, e falei alto essa palavra no meio do cinema. Meu irmão e o amigo dele ficaram sem graça.

Na saída do cinema eu insisti que tinha ouvido “jerkoff” e meu irmão ficou sem graça, aí eu parei de perguntar.

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Como assustar sua família

Hoje fui a um bar com a minha família (é, tenho sangue de pinguço), e apareceram uns vendedores de flores. Um tio meu começou a comprar um monte de rosas e distribuir às mulheres da mesa.

“Parabéns às mães!”

E tava todo mundo feliz, num momento politicamente correto raramente visto entre os D.

Eu confesso que já tinha bebido meu primeio copo de Heiniken quando soltei,

“E EEEEEEEEU????”

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Who’s the master, Leroy?

Eu sempre quis dizer isso!

Bem, pessoas que não sabem, hoje foi a defesa do meu mestrado e, against all odds, eu agora sou Mestre em Arte.

Sem perguntas de “pra que serve”, “e agora?”, deixa eu curtir esse repentino vácuo de obrigações acadêmicas auto impostas.

Meu dia começou assim:

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