Peço desculpas pelo post chato.
Achei essa frase da Clarisse Lispector e me identifiquei:
“O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão.”
(Agora a chateação do post dá suas caras; sempre me avisam que eu sou muito técnica quando escrevo, mas é porque as idéias tão gritando “a fila anda!” lá de trás, e, bem, aqui eu posso, dá licença)
Motivo #1
Eu acho que sei como o que “obviamente não presta”, “inacabado”, “malfeito” desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão” sente. Não porque eu ache que não preste, que sou inacabada, malfeita. É só essa tensão constante misturada com uma vontade forte. Todas as duas, forças direcionadas para coisas as quais se diz, “mas, pra quê?”, “é de comer?”, “faz dinheiro?” “puta que pariu, você merece sofrer, que idiota.” Uma energia enorme que se dissipa e se concentra e se dissipa e se concentra e se dissipa e se concentra e se…
Motivo #2
Você diz pro que obviamente não presta, inacabado, malfeito, que gosta, e ele te acha uma idiota. É adorável. Você elogia e ele logo acha, ah, que puxa, lá vem o elogio da cauda grande.
(parêntese: o elogio da cauda grande te dá uma chicotada que te pega de surpresa)
Ele pensa, uma hora ela vai se tocar que eu não presto, porque isso é óbvio. Ela é inteligente, só pode estar de sac*nagem comigo. Mas mal sabe o mal acabado que eu pensava a mesma coisa.
Motivo #3
É a Clarisse. Eu lembro que o primeiro livro dela que tive em casa era o do coelho. A capa era assustadora, nunca li. Fiquei ligando coelho medonho da ilustração da capa a Clarisse Lispector, com aquele olhar de lança. O olhar dela em todas as fotos que eu via era perfurante, ok, mas perfurar é pouco, aquilo era lança de matar cavalo. E uma vez eu fui pro Museu da Língua Portuguesa porque tinha uma exposição sobre ela. Num vídeo eu ouvi sua voz pela primeira vez. Achei muito estranho. Que sotaque é esse? É de onde? Ela é ucraniana (não sei, joguei a piada, sei que ela é eslava), mas chegou ao Brasil cedo. Que sotaque é esse? Pois não é sotaque. Ela tinha a língua presa. Estava lá aquela mulher de olhos de lança, postura impecável na poltrona de entrevistada, dominando a cena, …e a língua presa. Uma dificuldade de fala, uma lança nos olhos. Inacabada. Em algum lugar li que ela tinha sido recebida no mundo literário com um pouco de desprezo, porque “Lispector”, e pior,”Clarisse”, eram nomes ridículos. Obviamente não prestam.
E isso de terminar logo de cara, começar já acabado, remediado está. Eu sinto uma alegria tão grande de suspeitar que sabem como me sinto. É bom botar a planta do pé no chão depois de tanto tempo andando na ponta dos pés. Mas aí que nem começou e já acabou, eu quis fingir que não tinha acontecido, mas voltar a andar na ponta dos pés assim… Agora que já tateei o chão, a ponta dos dedos sabe que tem todo aquele espaço inconquistável, e é tão pior assim.